terça-feira, 12 de julho de 2011

Estilhaços (Parte VIII)

- Agora é hora de se irem deitar.

Quando as aconchegou na cama, ofereceu um beijo na fronte de cada uma, antes de apagar a luz fraca do candeeiro da única mesa-de-cabeceira presente no quarto. Depois disso, dirigiu-se para os próprios aposentos, rodando a chave e certificando-se que a janela estava bem fechada. Fazia-o sempre, desde aquilo que lhe acontecera em criança, não fosse a bruxa do saco subir até ali. Aproximou-se com passos hesitantes de uma estante não muito alta, onde guardava alguns dos seus livros favoritos. Escolheu um, de entre todos, de capa já antiga. O título, Viagem ao Centro da Terra, facilmente fazia prever que o escritor era Júlio Verne. Encostou-o ao peito e dirigiu-se até à cama, cujo o velho colchão chiou de queixume quando se sentou sobre ele. Ficou naquela posição durante longos segundos, como quem tenta angariar a pouca coragem que perfaz os recantos mais obscuros do espírito.

Por fim, apartou-o de si e abriu-o com cuidado, sem precisar de procurar uma página em particular, pois as folhas de imediato revelaram o que procurava. Os folíolos secos e as pétalas murchas que tinham já perdido um pouco da cor observavam-no, sem olhos.

- Âmbar, prometi-te que um dia tentaria descobrir o que te aconteceu. E, depois de ter contado a tua história às miúdas, sinto que esse dia chegou.

Tirou o ramo de alecrim do interior do livro e colocou-o no bolso do casaco de lã. Esperou mais um hora ou duas, até toda a casa cair em silêncio, e só aí se ergueu da cama. Desceu até à cave onde guardava a espingarda, entre outras coisas, e carregou-a com as balas que escondia dentro de uma caixa fechada a cadeado para os netos não brincarem com o que não deviam. Sabia por experiência própria que a curiosidade dos pequenos por vezes é catastrófica.

Pouco depois saiu de casa, de lanterna na mão, e encaminhou-se para o Outeiro dos Alecrins, ao mesmo tempo que se protegia da brisa fria. Por aqueles lados não existia qualquer candeeiro eléctrico, era um local desabitado que nunca tivera tal privilégio e fora abandonado à escuridão.

A luz varreu mais do que uma vez o interior do edifício, quando o velho Jun voltou a entrar nele ao fim de tantos anos. Nada se moveu. O silêncio que habitava o solar revelava-se mais grave que o do exterior. Mais pesado, tal como se lembrava dele. Não se deteve então naquele piso, dirigindo-se para o superior com passos lentos e pensados. Já não era nenhuma criança e pesava uns bons quilos a mais do que quando tivera oito anos, e por isso não desejava que toda a antiguidade e podridão da casa ruísse.

Apesar do medo que lhe palpitava no peito, Jun deixou a audácia tomar palavra e entrou no quarto onde Âmbar desaparecera. Como da primeira vez encontrava-se vazio, porém demasiado quieto. Os braços das cortinas não se moviam como os vira outrora fazer, o que em muito contrariava o vento da noite.

2 comentários:

Ana C. Nunes disse...

Estou a gostar muito da história. Aguardo pelo resto.

Leto of the Crows disse...

Obrigada :D

E tens razão, tenho de escrever a última parte.