sábado, 2 de julho de 2011

Estilhaços (Parte VI)

“Estremeceu, rodando a cabeça aos poucos e erguendo os olhos aterrorizados para a nova presença. Cruzou-os com dois orbes intensamente verdes que o miravam com alguma curiosidade. Não era um fantasma, era uma presença até bastante sólida, como aquele encontrão poderia testemunhar.

- O que fazes aqui, pequeno? – Perguntou, arregalando duas sobrancelhas finas. – Isto não é lugar para criancinhas. Devias…

A jovem, porque era claramente uma mulher com pouco mais de vinte e cinco anos, notou a diferença que havia no quarto: os sete novos estilhaços, os resquícios que tinham marcado a ousadia da sua irmã. Passou por ele, arrastando atrás de si um saco enorme que lhe lembrava aqueles onde a mãe punha o lixo, e o que transportava no interior ostentava uma forma peculiar. Familiar. Jun observou-lhe o cabelo negro entrançado, que lhe caía até ao nível da cintura. Por entre os fios de cabelo despontavam ramos de alecrim florido que lhe emprestavam uma aura leve. O perfume que deixara atrás de si porém não era de alecrim. Pairava em si um fedor a podridão.

Viu-a acocorar-se junto aos pedaços de espelho e tocar-lhes com várias unhas compridas e pontiagudas. As mãos reflectiam uma velhice que não estava inscrita no rosto bonito, encarquilhadas pelo tempo. Enquanto isso, abandonara o saco ao seu lado e, quando o fizera, um pé descalço de tom escurecido revelou-se.

- Não estavas aqui sozinho, pois não? – Quis saber, sem o olhar, enquanto reunia cada um dos vidros com ambas as mãos em concha e os levava para cima do toucador. Não escutou resposta, porque Jun sentia que a língua lhe fora roubada. Por um momento pensara que aquilo era um membro da irmã, mas não, Âmbar era bastante mais pequena. Mas o que via não deixava de ser o que revelava ser: um cadáver real.

A mulher mirou-o de soslaio, examinando-o e percebendo facilmente aquele terror mudo. Sorriu. Todavia o trejeito no rosto não era amável. Um dos cantos dos lábios erguia-se, escarnecendo da criança. Endireitou-se e ajeitou as saias do vestido comprido.

- Sabes, é feio entrar na casa dos outros sem ser convidado. Chama-se invasão de propriedade privada. E quem o faz pode ser preso – declarou, levando uma mão ao cabelo e retirando um ramo de alecrim dele, estendendo-o na sua direcção. – Toma a tua irmã.”

3 comentários:

Vitor Frazão disse...

Gostarei mais quando tiver tudo e conseguir ler de uma ponta à outra, mas até agora a história está a demonstrar muito potencial. A escrita é muito diferente da que eu utilizaria, mas cada um tem o seu estilo. :)

http://cronicasobscuras.blogspot.com/

Leto of the Crows disse...

Obrigada, Vitor ^^
Quando comecei a escrever, queria que ficasse mais curto do que está a ficar, na verdade xD

Vitor Frazão disse...

Já me aconteceu o mesmo muitas vezes. A histórias tem uma tendência a assumir o controlo.