domingo, 26 de junho de 2011

Estilhaços (Parte IV)

“Encostaram-se à parede suja, adjacente à primeira porta entreaberta do corredor.

- Aos três, empurramos a porta para trás… - avisou Âmbar, relanceando o irmão por um segundo. – Um, dois… três!

Com um golpe de pé, a rapariga abriu a porta que bateu contra algo. Um súbito guincho estridente recebeu-os e, como resposta, eles gritaram em uníssono para, instantes depois, verem uma ratazana saltar do interior do aposento e precipitar-se para longe dali a toda a velocidade, tão assustada ou mais que eles. Fecharam a boca, e preferiram não comentar o sucedido, de rostos enrubescidos pela vergonha do engano. Não tinham surpreendido qualquer alma penada que tivesse morrido ali e cujo cadáver pudesse ter sido escondido num guarda-fatos…

Entraram, mirando o espaço com atenção. As cortinas retalhadas das duas janelas lembravam a Jun braços inertes que algum assassino psicopata se dera ao trabalho de pendurar como um enfeite de requinte. Também lhe lembrava que não deveria ver filmes de terror às escondidas, quando o deixavam sozinho em casa. A brisa provinda do exterior agitou aqueles membros, conferindo-lhes um pouco de vida. E se tivessem a capacidade de se esticar e procurar-lhes os pescoços?

- É um quarto – constatou Âmbar, aproximando-se da cama e espetando a espada no colchão deteriorado, enquanto o rapaz passava uma mão pelo pescoço ao pensar no que seria a realidade do que imaginava. – E tem um guarda-fatos!

Correu para lá, enquanto o irmão tentava esquecer as suas ideias, desviando o olhar das cortinas e deparando-se com os restantes pormenores. Não era um espaço muito grande, mas outrora estivera bem mobilado. Aproximou-se de um toucador coberto de pó, atentando no espelho de parede partido cujos estilhaços cobriam a sua superfície. Não os contou de propósito, mas ao fazê-lo percebeu que eram sete.

- Um bocado para cada ano de azar – sussurrou para si, ganhando pele de galinha. Âmbar olhou para trás ao escutá-lo. Entretanto já abrira o armário e confirmara a inexistência de um morto.

- O que estás para aí a magicar? – Perguntou, espreitando por cima do ombro dele, em bicos de pés. Apesar de ser mais velha não era mais alta – Uuuh! Um espelho partido! Pode ser a nossa resposta. O fantasma pode tê-lo quebrado quando estava vivo, e até pode ter morrido com algum pedaço mais cortante.

Jun abanou a cabeça, como se quisesse tirar as palavras da irmã de dentro dos ouvidos. Ela fizera questão de lhe pôr mais imagens sangrentas no cérebro. Quando voltasse a casa e fosse dormir, iria molhar o colchão, era certo.”

2 comentários:

p a t r í c i a * disse...

EW. Molhar o colchão? Que idade tem ele?


Agora aparece o Ciaran! :D

Leto of the Crows disse...

O rapazito deve ter uns oito anos :p